Biografia resgata história de educadora que foi primeira negra parlamentar do Brasil

Biografia resgata história de educadora que foi primeira negra parlamentar do Brasil

Biografia resgata história de educadora que foi primeira negra parlamentar do Brasil

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“A vida só é vivida quando há esforço para as conquistas superiores.” Esta frase lapidar foi proferida por Antonieta de Barros, em 1934, em Florianópolis, na ilha de Santa Catarina, terra natal de um gênio da poesia brasileira, que foi o poeta Cruz e Sousa. Três anos depois, Antonieta sagrava-se a primeira parlamentar mulher e negra do seu estado e do país. Era o início de uma jornada pública e política, que seria interrompida, abruptamente, com a sua morte prematura, em março de 1952, por problemas causados pela diabetes.

A trajetória dessa mulher negra à frente do seu tempo está contada com competente maestria, além de ricamente documentada, em “Antonieta de Barros: professora, escritora, jornalista, primeira deputada catarinense e negra do Brasil”, por Jeruse Romão, pesquisadora e ativista do Movimento Negro e fundadora do NEN (Núcleo de Estudos do Negro).

“Antonieta de Barros” não retrata apenas uma ótima biografia: é o primeiro estudo com grande abrangência sobre a vida e a obra dessa que foi, nas palavras de Flávia Person, documentarista e integrante da Associação de Mulheres Negras Antonieta de Barros, uma “das mulheres mais importantes da história de Santa Catarina, do país (…) e que fez história na América Latina”.

Antonieta de Barros deixou um livro-testemunho do seu pensamento, intitulado “Farrapos de ideias”, publicado em 1937, mesmo ano em que se torna, na vacância do cargo, embora temporariamente, também a primeira mulher (e negra, cabe destacar), a presidir uma casa legislativa em território nacional. Está entre as três primeiras mulheres eleitas no Brasil, entre as quais é a única negra. Ainda em 1934, a médica Carlota Pereira de Queirós foi eleita deputada federal; sete anos antes, elegeu-se prefeita de Lages, no Rio Grande do Norte, a fazendeira Alzira Soriano.

A mãe e o incentivo ao estudo

Entretanto, o pioneirismo de Antonieta não para por aí. Ele tem fundas raízes na sua ancestralidade: vem da mãe Catarina, uma ex-escravizada, exímia lavadeira, moradora das áreas mais despossuídas da cidade, que “empurrou” as filhas, incluindo a irmã Leonor de Barros, para o caminho dos estudos, interrompendo o forte ciclo de servidão e ofensas como sórdida herança dos tempos da escravidão.

Assim, Antonieta se tornou educadora e, acima de tudo, ativista e referência no magistério do estado — como deputada estadual, propôs em 1948 a lei que cria o Dia do Professor, 15 de outubro, adotada inicialmente no estado e em 1963 no âmbito nacional. Fundou e dirigiu, em sua residência, o Curso Primário Antonieta de Barros, atuando, na mesma época, na Liga do Magistério Catarinense.

Para além do campo da educação, com atuação que materializa o combate à exclusão social das camadas mais pobres, Antonieta filia-se aos primórdios do movimento feminista, no escopo da conquista do direito do voto para as mulheres, o chamado “sufrágio feminino”.

Sob a forte influência política da família Ramos, em especial de Nereu Ramos — sua mãe trabalhara na casa de Vidal Ramos, pai de Nereu —Antonieta galgou ainda um segundo mandato de deputada, em 1948, outro feito inédito, a despeito de todo o racismo que lhe fora infligido. De acordo com Azânia Mahin Romão Nogueira, filha de Jeruse, e prefaciadora da obra, o livro “serve como denúncia da produção de silêncios acerca da trajetória de Antonieta”, destacando que Jeruse “é uma das herdeiras do legado político, educador e social de Antonieta”, tal “a afinidade de energia de luta de ambas”, no campo do antirracismo, acrescentaria.

“Antonieta de Barros” pauta-se pelo resgate da memória de uma das mulheres mais atuantes no campo da política em um dos estados da federação com menor densidade demográfica negra. É uma obra que traz em si várias urgências: a primeira delas é a de ser lida.

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